Cresci ouvindo sobre as vantagens de ser de plástico. O plástico dura, não estraga com a água, não dilui com a chuva, não amarela com o tempo.
O plástico brilha e é impermeável.
Ser plástico significa materializar televisões, DVD´s, fitas k-7, CD´s, barbies. Significa carregar produtos de consumo e desejo. Representa a embalagem e o próprio bem.
Ser plástico é estar dentro de carros que não passam de ilusões almejadas por mentes alienadas que sentem ser o único veículo para se chegar à tal felicidade.
Com tanta utopia rondando o moderno derivado de petróleo sempre me senti à margem. Sempre me senti um papel. Com raízes orientais, frágil ao toque, rasgando eventualmente, amarelando com o tempo, sensível à chuva.
Admito que por anos meu sonho foi me plastificar para tentar fazer parte e me enquadrar nessa sociedade plástica que se auto intitulava sinônimo de felicidade.
Mas como plástico não é papel a rejeição inundava minha auto-estima e aromatizava a minha essência a qual se evaporava por meus poros. De uma forma ou de outra, todos os tupperwares ao meu redor sentiam no ar o meu estranho cheiro de papel.
Com o tempo percebi que não queria ser o que todos queriam. Que ser de papel era muito mais especial. Que possuía em mim os vincos feitos pelo tempo, que minha coloração transmutava, que poderia ser objeto dos desenhos mais incríveis, das letras mais bem combinadas, das cores e texturas mais diversas. Aprendi que posso me reciclar em casa, sem nada de artificial. Percebi que sou leve e consigo flutuar com a brisa. Descobri que as lágrimas mudam minha textura e que posso bordar meu próprio trajeto e traçar meu conceito pessoal de felicidade.
Nada como ser produto de árvores naturais que tiveram sua própria história de vida e não derivar de uma gosma preta, mal cheirosa e massificada. Nada como ser acessível, sensível e simples.
Sou papel.
terça-feira, 12 de maio de 2009
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