
Sempre julguei exagerada e incompreensível a atenção dada a alguns cães por certos humanos. Até conhecer você. Foi amor a primeira vista. Confesso que te achei meio esquisito, com aqueles olhos viradinhos que me deixavam confusa sobre onde olhar. Mas a sensação de estranheza logo passou. Mal havia escolhido sua caminha e você já foi logo se deitando nela como se já soubesse que ela faria parte de seu novo lar. Subiu no carro e nem precisei me preocupar com a eventual bagunça pois sua única reação foi ficar deitadinho naquele tufinho de algodão revestido com o pano amarelo. Ao chegar em casa, visitou cômodo por cômodo, cheirando cada cantinho que seria seu. Conheceu o seu aliado jornalzinho das horas de aperto mas em um primeiro momento o ignorou, afinal, aquilo não era confortável o suficiente para um xixi. Tudo bem. Não demorou uma semana para que aprendesse onde era o seu banheiro. Sim, você é inteligente. Não há como negar. Burros são os donos que acham que ensinam a base de palmada. Você aprendeu com carinho, o que não poderia ser diferente em se tratando do meu carinho coberto por pelos. Ninguém acreditaria que um cãozinho se dirigiria sozinho ao castigo e esperasse para que ouvisse o aval de liberdade nas raras vezes em que cometera faltas. Depois de uma hora da sua chegada já comecei a sentir minhas novas quatro patinhas. Onde quer que eu ia elas iam comigo. E quando percebiam que não poderiam me acompanhar elas se escondiam debaixo da cadeira azul se camuflando em dois olhinhos esbugalhados e cabisbaixos que faziam manha apelando para que não ficassem só. Aquele olhar sempre me disse tudo, me ensinou o que era um amor incondicional, me revelou a sensação de acordar todos os dias me sentindo especial. Às vezes você não percebia, mas eu abria um dos olhos escondido e espiava você me esperando acordar. Eu sempre gostei de te ver olhando para mim e acho que a recíproca era verdadeira. Já tinha até decorado a rotina: acordava, a gente se cumprimentava fazendo festa e ia para o banheiro tomar banho. Te observava pelo vidro do box deitado no tapetinho me esperando sair. E bastava eu desligar o chuveiro para que você me desse licença, sem nem mesmo eu pedir, e deixasse que eu subisse no piso. Do banho para o café da manhã o lugar em baixo da cadeira já era o seu cantinho cativo, dele só se retirava no momento da escovação dos dentes, quando se enfiava embaixo do gabinete.E todo dia era a mesma rotina. A mudança se dava com pequenos temperinhos que a vida foi se encarregando. Foi se estabelecendo um acordo tácito, ou um amor mais do que incondicional recíproco. Eu prometi para mim mesma sempre cuidar do meu cãozinho da melhor forma possível: não deixar passar um dia sem passeio, escovar você, te alimentar da forma mais balanceada possível, te dar muito carinho, te levar ao ibira nos fins de semana, te deixar o menos sozinho possível e etc. E você fez muito mais do que qualquer um poderia ter feito nos momentos mais difíceis da minha vida. Foram longas horas de estudos com você roncando ao meu lado, foram lágrimas de um coração partido com você encostado no meu ombro. Só você mesmo para adivinhar que meu avozinho partiria, desobedecer aos meus comandos e se deitar do meu lado na noite da despedida, quando nem eu mesma sabia que teria que dizer adeus. Nunca nem quis pensar na possibilidade de não poder mais te ver. Só de vislumbrar vagamente essa hipótese me fazia chorar, como na noite que terminei de ler o livro do Marley (que não é nenhuma obra prima, diga-se de passagem...) e acabei colocando você do meu lado da cama pra ter certeza de que você estava lá. E você estava. Roncando como sempre. Afetivo como sempre. Querido e carinhoso como sempre. No bairro, você passou de estranho e feio para conhecido e esperado. Todos passaram a te admirar e a reconhecer todas as coisas boas que você transmite, mesmo com apenas uma única bolinha.E de repente, sem nem deixar eu me despedir, você parte no meio da noite e me deixa nesse vazio que nem eu tinha idéia do quão imenso ele seria.
Se eu pudesse voltar no tempo e mudar tudo pra que estivesse ouvindo o seu ronco agora eu voltaria e transformaria tudo. Juro que quando pensei em te levar para Atibaia foi para que não ficasse sozinho naquela noite, já que sei o quanto você se sente só nessas situações. Errei. Todavia, queria que soubesse o quanto sinto sua falta. A casa está em clima de luto. A Jose e a vovó vivem chorando. A Godozinha não cansou de te procurar e também anda cabisbaixa. A vizinhança ficou abalada quando soube que você estava em um paradeiro desconhecido. Não só a moça da banca de jornal da frente de casa ficou triste, mas também os seus amiguinhos do passeio, os porteiros aqui do prédio, o padeiro e todo mundo que você costuma cumprimentar todos os dias. A Regiane da Cobasi ficou ontem com os olhos marejados e disse que iria rezar para que você voltasse logo.
Só escrevi para deixar registrado o quanto eu te amo e o quanto eu espero que esteja aqui para passearmos no ibira juntos.
Prometo deixar você cheirar todas as cadelinhas (até mesmo a Gaulês) e quando se cansar carrego os seus quase 10 kg no colo e deixo que você fique no ar condicionado sem a godozinha te urubuzando. Também prometo deixar que você durma na minha cama e asseguro que a Godot não morderá mais as suas bochechas e o seu rabinho.
o gandhi é realmente único, muito especial... falar mais o que?.........
ResponderExcluirAntes de mais parabéns pelo blog! Compreendo o teu sofrimento pelo Gandhi. Durante algum tempo questionei a razão da partida da Pipa. E pergunto, será que está ao nosso alcance perceber? Mas, em relação ao Gandhi, parece-me que tomaste a atitude correcta quando pensaste em levá-lo, fizeste o melhor que sabias no momento, isso é que importa. Claro que a Pipa deixaria ele ser amigo, mas quem sabe ele não aparece. São estas situações que nos fazem crescer interiormente, e ficar mais maduros…
ResponderExcluirFofo (a). Como conseguimos nos relacionar com o desconhecido?!
ResponderExcluirO desconhecido será sempre desconhecido!!
ResponderExcluirO segredo é não correr atrás das borboletas, mas cuidar do jardim para que elas apareçam.