sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Último dia.

Última manhã. Acordo sem despertador, engulo meu omeprazol, coloco a água pra ferver. Vou até a sala e faço a saudação ao sol. Minhas costas estalam esperneando que também já estão fartas dessa rotina. A água borbulha pronta para filtrar parte da essência do chá. Tomo meu leite com cereal. Escovo meus dentes, venho para meu quarto. Sento na cama. Dura. Pausa.
Na escrivaninha canetas, códigos, água, luminária e o meu caderno que me chama e me repulsa gritando comigo e exigindo que eu saiba sobre posse e propriedade. Lembro-me que parei na parte de usucapião. Ah, o usucapião... Ou A usucapião!? Pouco importa qual o gênero do instituto o que importa é que o seu destino final é a ilusão. Concretiza o ter a propriedade por querer ter a propriedade e, ao fim, dominar. Para quê dominar?! Para quê ter a propriedade!? Tudo ilusão. Tudo. Tão melhor sentir o intocável, viver o abstrato, captar a sensação... Sinto falta de sair por aí com pensamentos... Só pensamentos fluidos, espontâneos, sem amarras.
Escuto barulho de chuva... Os pingos mais fortes já se foram. Amanhã eu também me vou. No engodo de tantos acontecimentos e circunstâncias completamente fora do meu controle resta um receio sobre o que há de vir. Inicialmente pensei que o que me apavorava era o fato de não saber pra onde eu iria, em termos físicos. No entanto, minha aflição é mais interna. Me questiono se realmente mudei ou se simplesmente me adaptei às circunstâncias. Será que tudo aquilo que senti falta realmente existia?! Será que vou conseguir ser?!
Já quase não ouço mais a água. O que hoje é amanhã não será. Mas fará parte. Respiro fundo. Me direciono ao meu caderno.

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